Livro “História Kaiowa: Das Origens aos Desafios Contemporâneos”

kaiowaResenha
CHAMORRO, Graciela. História Kaiowa: Das Origens aos Desafios Contemporâneos. São Bernardo do Campo, SP: Nhanduti Editora, 2015. 320p. Coleção Povos Indígenas.

Isabelle Combès

Missões efêmeras, mas que tiveram entre outras consequências o desterro de um cacique idoso que desejava “transmitir às gerações vindouras os costumes das gerações passadas”; bandeiras sangrentas que provocaram mortes, fugas e escravidão; ataques dos indígenas Mbajá que acabaram com a presença de povos guarani falantes no antigo Itatim; a Guerra da Tríplice Aliança, com a consequente exploração humana nos ervais e nas fazendas de gado; o desflorestamento e a implantação de novas fazendas que significou para o povo indígena uma perda lenta e progressiva de seu território. A história kaiowa pode ser vista desta maneira, como uma sucessão de catástrofes, todas devidas a atores externos que alteraram, moldaram, mudaram e continuam mudando o futuro deste grupo humano, pois catástrofes resultaram em mortes, deslocamentos forçados, exploração, discriminação, perda de terras e pobreza. Transformaram os antigos Itatim dos primeiros conquistadores em desprezados Ka’agua, “gente do mato”, “selvagens”.

Neste livro, Graciela Chamorro quis entranhar-se na história kaiowa, mas sua obra nos leva muito além desse simples propósito. Apesar de deixar claro que não é indígena, que seu olhar é necessariamente externo, Graciela conseguiu nos contar o passado dos Kaiowa, mas também o passado “a la kaiowa”, à maneira desse povo: uma história que, longe de ser letra morta ou motivo de lamentos, é um impulso para o futuro, uma direção a seguir, um canto à vida.

Como a autora mostra, os Kaiowa costumam dividir sua história em três tempos: o tempo do ymã guare – o tempo de antes, o tempo de liberdade, das coisas boas; o tempo do sarambi, “bagunça, espalhamento compulsório” – o tempo sombrio da perda territorial, dos deslocamentos forçados, da pobreza e da miséria, é o tempo destas catástrofes que evoquei acima, embora nem todas ficassem inscritas na memória coletiva do povo. Contudo, na história kaiowa existe um terceiro tempo: o tempo de hoje, o “tempo do direito”, da luta por sua terra e seus direitos, o tempo em que o desprezado Ka’agua se transforma em um orgulhoso Kaiowa.

Sendo assim, este livro é uma caminhada pela história kaiowa, tal como a podemos conhecer e reconstruir a partir das fontes históricas, sobretudo desde o fim do século XVIII quando aparece o grupo como tal e com este nome: quando sucessivas catástrofes (missões, bandeiras etc.) já puseram um fim aos antigos Itatim, fazendo surgir os Ka’agua. Mas o livro navega também entre as recordações da memória coletiva kaiowa, a história oral, a mitificação dos acontecimentos históricos, sem jamais cair na armadilha onipresente que consistiria em opor uma visão “historicamente correta” – a acadêmica – àquilo que seria uma simples “representação kaiowa” do passado. Os relatos indígenas mesclam e entretecem elementos históricos, elementos míticos kaiowa e elementos míticos cristãos, numa leitura própria daquilo que ocorreu. E esta leitura é mais do que uma simples “representação”. Ela existe e, como tal, condiz com o que a história é para o povo Kaiowa: “uma espécie de luz que chama para o modo de agir considerado bom. O discurso mítico define o sentido do caminhar e fornece a direção para onde se caminha, sendo que esse caminhar se realiza na história”. Não é nenhum acaso que as terras reivindicadas como tradicionais pelos Kaiowa, e pelas quais eles lutam hoje neste tempo “do direito”, sejam chamadas por eles “tekoharã, nosso futuro tekoha, o lugar no qual viveremos segundo nossos usos e costumes” – uma expressão que, certamente, teria alegrado, e muito, aquele antigo cacique itatim desterrado.

Este passado mitificado e idealizado tampouco é o passado “puro” de uns indígenas que teriam permanecido impermeáveis ao passar do tempo. Ao contrário, o relato sobre o passado alimenta-se desses acontecimentos, dessa história “de outros”, provocada “por outros” (missionários, fazendeiros, sertanistas, bandeirantes etc.), mas que acabou forjando a história kaiowa e o ser kaiowa de hoje: graças à sua história peculiar, os Kaiowa levam hoje o nome dos antigos Ka’agua, graças à sua história também se declaram hoje “filhos da Cruz”. Definitivamente, o discurso kaiowa sobre o passado, embora esteja idealizado, ou talvez melhor, justamente porque está idealizado, é uma crítica feroz às calamidades do segundo tempo do sarambi, e assim um chamado para lutar, um chamado político para tornar possível um mundo melhor.

É também desta maneira, “a la kaiowa”, que interpreto todo o livro de Graciela Chamorro. Não poderia ter sido escrito por outra pessoa, por alguém que não tivesse sua sensibilidade, seu profundo conhecimento do teko kaiowa e a capacidade compartida com eles “de dizer ‘sim’ à vida”. Nesta simpatia – no sentido etimológico da palavra – está a diferença do livro de Graciela; graças a esta simpatia, também a tarefa acadêmica de “escrever uma apresentação” se transforma para mim em ocasião de expressar admiração e gratidão por seu ensinamento, sua generosidade e seu entusiasmo contagioso. Mas há algo em que discordo, sim, de ti, Graciela: é verdade que teu livro, assim como outros, descreve os tempos tenebrosos do sarambi; mas ele não se localiza nele: ele pertence ao “tempo do direito” – o direito de conhecer sua história, de aprender dela – e, como tal, pertence ao futuro.

História Kaiowa: Das Origens aos Desafios Contemporâneos
Assunto: Povos Indígenas Ameríndios | Cultura e religião kaiowa
Autor: Graciela Chamorro
Formato: 16×23
Número de páginas: 320
Editora: Nhanduti Editora 2015
ISBN: 9788560990238

Fonte: Nhanduti Editora

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