Há uma InFusão a acontecer no caldeirão cultural de Arroios

Nesta freguesia do centro de Lisboa, há um programa a decorrer que quer servir de exemplo para futuras políticas públicas de integração de imigrantes em Portugal. A saúde, a educação, o emprego, a cultura e a informação são as grandes prioridades.

Nigéria, Afeganistão, Nepal, China, Senegal, Síria, Paquistão, Bangladesh, Camarões. “Nós sabemos que aqui se falam quase 100 línguas. Até Tigrínia, a língua que se fala na Eritreia e que só é falada por cerca de cinco mil pessoas no mundo”, diz Sérgio Oliveira, técnico da Fundação Aga Khan que trabalha na Junta de Freguesia de Arroios.

Nesta freguesia do centro de Lisboa, dizem os últimos Censos, residem mais de 45% dos estrangeiros que moram na cidade, mas nem todas comunicam ou interagem facilmente. Por isso, um conjunto de associações quis criar um programa para “facilitar” a participação e integração de imigrantes na cidade. 

“São pessoas que estão cá, que não compreendem bem o sistema, a língua é o verdadeiro obstáculo e portanto que não chegam às respostas”, diz Ana Quintela, da associação Crescer, que encabeça o programa. Deram-lhe o nome de InFusão por considerarem ser preciso uma “melhor articulação” entre as instituições e as pessoas: “Era preciso ouvi-los”.

“Não há tanto histórico de imigração [na cidade] de pessoas ligadas, por exemplo, ao Afeganistão, daquelas zonas da Ásia, e de alguns países africanos, que não têm ainda ligação ao funcionamento do tipo de serviços que existem na sociedade portuguesa”, explica a responsável da Crescer.

O programa nasceu no âmbito do já existente Gabinete de Apoio aos Bairros de Intervenção Prioritária (GABIP) Almirante Reis, uma iniciativa entre a câmara de Lisboa, a Junta de Freguesia de Arroios e a Fundação Aga Khan Portugal para a zona da Pena, Anjos e Almirante Reis. A estes juntaram-se outros parceiros formais como a Associação Crescer, a Associação de Refugiados em Portugal, o Movimento Português de Intervenção Artística e Educação pela Arte (Movea) e a LARGO Residências, além de um conjunto de “parceiros informais” que colaborarão nos projectos que serão levados a cabo durante a execução do programa, que é co-financiado (a 75%) pelo Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração (FAMI), num total de cerca de 150 mil euros.

No final do programa, em Março de 2020, os responsáveis esperam que o InFusão tenha, pelo menos, posto em cima da mesa a alteração das políticas públicas, motivada por uma “aculturação” do próprio sistema, tendo em conta o que as pessoas de diferentes regiões trazem para a cidade.

“O que nós pretendemos é dar voz a estas pessoas e conseguir que isso possa fazer alterações no sistema. O nosso objectivo é contribuir para que haja mudanças de política pública que possam melhorar as condições de vida das populações mais vulneráveis”, refere Ana Quintela.

A prioridade é a informação

O projecto arrancou em Setembro e vai estender-se até Março de 2020. Foi desenhado sob quatro pilares: educação, saúde, empregabilidade e cultura.

A prioridade é traduzir a informação. Na saúde, está prevista a elaboração de folhetos sobre temas como cuidados de saúde na gravidez e infância ou dos serviços disponíveis, por exemplo, em, pelo menos, seis línguas (português, inglês, nepali, urdu, árabe e mandarim) e segundo os “códigos culturais” de cada comunidade.

“Não é só ter informação, é adequá-la”, diz Ana Quintela, exemplificando: “Para os árabes não se pode agrafar papéis do lado esquerdo. São estas pequeninas coisas”.

Está também a ser planeado um projecto-piloto com a equipa da especialidade de Pedo-Psiquiatria do Hospital Dona Estefânia, em articulação com o jardim-de-infância e 1º Ciclo do Jardim de Infância dos Anjos (JIFA). O objectivo é que as crianças sejam acompanhadas como prevenção de problemas de perturbação da linguagem por estarem em contacto com diversas línguas.

“Além de fazerem um trabalho com crianças, vão fazer com os pais, por causa do desenraizamento que sentem e porque há crianças que são multilingues. Falam Português, Nepalês e Inglês, por exemplo. Tudo isto em simultâneo enquanto estão a adquirir a linguagem, o que pode causar algumas confusões”, explica a responsável da Crescer.

Importa traduzir livros ou contos infantis ou de uma simples autorização para uma visita de estudo. “Mandaram um papel para casa para [os pais] assinarem”, conta Ana, explicando que não perceberam para que serviria aquele papel. “Os pais achavam que eles próprios iam. Todos os dias há esta aprendizagem de como os sistemas funcionam de forma diferente”, nota.

Fazer da linha verde uma galeria de arte

Quando se trata de entrar dentro da sala de aula, as actividades ficarão a cargo do Movea, que vai promover um conjunto de workshops, “de todas as áreas artísticas”, detalha Elisa Ferreira, que serão alargados a 200 crianças, de várias escolas do Agrupamento Nuno Gonçalves, onde há 604 alunos estrangeiros, de 38 países (incluindo Portugal), entre crianças, jovens e formandos adultos.

Prevista está também a realização de um workshop de vídeo, para conseguir pôr os miúdos a filmar os momentos do Infusão ao longo destes anos e fazer uma espécie de “documento” do programa.

Ainda do lado das artes, o Infusão quer fazer um espelho do que se faz à superfície para as escuras estações de metro dos Anjos, Intendente e Arroios, diz Ana Quintela. E fazer do metro “uma galeria de arte underground”, com artistas destes países. Além disso, os promotores defendem um reforço da sinalética do metro para melhor identificar os serviços de apoio que existem às comunidades de nacionais de países terceiros (NPT).

“Isto é tudo muito bonito, mas nós precisamos é de emprego”

Startups, incubadoras, aceleradoras, espaços de coworking. É a gíria da nova economia. Alguns destes espaços proliferaram pela cidade nos últimos anos, mas já uma larga franja da população que está alheada desta realidade, acreditam os promotores. “Isto é tudo muito bonito, mas nós precisamos é de emprego”, diz Ana Quintela, recordando uma das reuniões de preparação do programa, em que a Associação de Refugiados em Portugal insistiu que a empregabilidade teria de ser um dos pilares do programa.

O objectivo passa agora por dotar quem já cá está – e quem chega – de ferramentas para que consigam integrar-se no mercado de trabalho, porque “o sistema ainda não arranjou formas de saber responder a quem está cá”, critica Sérgio Oliveira.

O programa prevê a realização de um curso de formação de formadores, certificado pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). A partir dessa formação, são os Nacionais de Países Terceiros a segurar o leme. Serão eles os responsáveis por dar formação, na área do empreendedorismo, a outros NPT que pretendem lançar-se num negócio próprio ou a quem já tenha um estabelecido, para que as formações sejam dadas segundo os códigos de cada cultura.

“Se calhar nós aqui usamos o powerpoint, mas eles não usam. Vão dar [as formações] da maneira que eles sabem dar. Achamos que seria uma forma interessante da mensagem chegar àqueles que não vão ao IEFP”, explica Ana.

A expectativa é a de que algumas das propostas comtempladas no programa possam sobreviver a estes anos de duração do InFusão. “Nenhuma das medidas vai ser feita isoladamente. Se isso não for feito assim, o plano acaba e tudo o que foi feito chega ao fim. E isso não é desenvolvimento”, aponta Sérgio Oliveira. Ainda que haja a consciência de que três anos é pouco tempo “para mudar consciências e mentalidades”.

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